Crónicas de Montanha por Carla Albuquerque

Atrilheira Caminhante
Tinha de voltar a experienciar a liberdade e felicidade que outrora senti. Tinha de regressar com a energia renovada pela experiência vivida. Tinha de voltar a sentir o coração cheio
Sempre disse que voltava e voltei!





Sempre disse que voltava e voltei!!
Em junho de 2022, pisei pela primeira vez o Monte Perdido, naquela que foi também a minha estreia em expedições. Quatro anos depois, estava pronta para repetir e reviver a aventura.
Tinha de o fazer! Tinha de voltar a experienciar a liberdade e felicidade que outrora senti. Tinha de reviver as emoções de alcançar, mais uma vez, o cume do Monte Perdido. Tinha de resgatar o aroma fresco da floresta, de recuperar o toque sublime daquela brisa que nos arrepia e nos recorda a maravilha que é estar ali. Tinha de regressar com a energia renovada pela experiência vivida. Tinha de voltar a sentir o coração cheio….
A viagem parecia não ter fim. À medida que nos aproximávamos, aquele sentimento de ansiedade crescia e permanecia ali, contido. Entre pensamentos silenciosos e conversas animadas, avistámos, finalmente, o nosso tão desejado destino. Agora, tudo iria (re)começar!












Partimos logo após o almoço do parque de estacionamento do Vale de Ordesa, com o objetivo de atingir o refúgio de Góriz, a 2200 metros de altitude, onde iríamos pernoitar. A progressão fez-se junto do cenário encantador do vale, diante uma floresta densa, que se tornou uma aliada contra o calor sufocante, que já se fazia sentir. Com paragens estratégicas, fomos desfrutando do melhor que a natureza nos oferece.
A paragem junto à cascata Cola de Caballo foi obrigatória para reunir forças; sabíamos que a subida que nos esperava seria implacável, exigente e técnica, com passagens em clavilhas. Para aumentar o desafio, fomos surpreendidos por uns chuviscos que em nada ajudaram. Superadas as adversidades da subida e do tempo, o restante percurso até ao refúgio fluiu de forma tranquila e serena. Já instalados e após um momento de convívio, chegou a hora do descanso. O amanhã exigiria tudo de nós.
Madrugámos. De mochilas às costas, mal os primeiros raios começaram a brilhar, iniciámos os preparativos para a ascensão ao Monte Perdido. O dia estava bonito: o sol raiava no céu azul e a temperatura era amena. A ausência de neve no início permitiu um avanço rápido e fluido. Eram as condições ideais para contemplar a paisagem que, aos poucos, se deixava cobrir por um manto branco de neve – estávamos num cenário tranquilo, único e majestoso.
Na última paragem técnica, recuperámos energias, ajustámos o material e encordámo-nos. Foram ações decisivas para realizar a tão desejada e temida Escupidera. Passo a passo, e fiéis ao lema do grupo – “devagar e sempre”- lá fomos nós, em duas cordadas, firmes e confiantes de que superaríamos juntos mais um belo desafio.
Passava poucos das 11 horas quando nos felicitámos a 3355 metros de altura. Senti uma enorme felicidade! Tinha alcançado o Monte Perdido de novo, mas desta vez pintado de neve! Que sensação maravilhosa de realização! Pensei para mim “Sempre disse que voltava e voltei!”. Contudo, era hora de regressar: o vento que se fazia sentir era cortante e desagradável. A descida fez-se de forma rápida e segura sobre uma neve em excelentes condições.
Chegámos a Góriz a tempo de devorar um bom hambúrguer. De mochilas refeitas, regressámos ao ponto de partida, desta vez pelo trilho da Senda dos Caçadores. Se a subida foi magnífica, a descida não poderia ter sido melhor; foi um desfrutar de paisagens deslumbrantes com vista para o vale que ajudou a superar o cansaço que já teimava em aparecer. Após dois dias exigentes de mochila às costas, com botas de neve rígidas que nada têm de confortáveis, a caminhada tornava-se uma tortura. As pernas acusavam a fadiga, os pés e tornozelos imploravam por socorro. A prometida paragem no miradouro Calcilarruego parecia algo distante.








Até que chegámos, já em piloto automático. Parámos, lanchámos e, claro, contemplámos a paisagem envolvente, simplesmente estonteante. Parecia um quadro pintado a óleo, retirado de um museu. Que saudades tinha deste lugar mágico! Deixámos o miradouro para trás e mergulhámos num ziguezague interminável até ao parque de estacionamento. Quando, finalmente, chegámos à carrinha, apenas trocámos de calçado e dirigimo-nos ao hotel.
Após uma noite verdadeiramente restauradora, a manhã seguinte trouxe-nos um novo desafio: o trilho da Faja de las Flores. Este é um dos percursos mais conhecidos do Parque Natural de Ordesa e, para mim, também um dos mais belos. A sua riqueza natural permite contemplar a montanha em todo o seu esplendor, entre falésias, escarpas e imponentes paredes rochosas que envolvem o Vale Mágico.
Caminhar a 2000 metros de altitude é fenomenal. A paisagem com vista para o vale é cada vez mais cinematográfica, como se estivéssemos perante um cenário vivo de um filme. Para além da flora, tivemos ainda a oportunidade de observar a fauna local, com aves de rapina a sobrevoar os céus numa liberdade verdadeiramente impressionante.







No regresso, apesar da temperatura elevada, o grupo revelava uma energia contagiante, e sentia-se confortável. Por unanimidade, decidimos fazer uma pequena alteração e incluir um trilho extra não planeado. E que decisão acertadíssima! Permitiu-nos explorar um pouco mais daquele vale maravilhoso, uma oportunidade que sabíamos ser única. Assim como sermos surpreendidos com a possibilidade de usufruir de um rappel numa parede contígua a uma cascata! Sem duvida que tornou este dia ainda mais inesquecível!
Cansados, mas felizes, terminámos a atividade. Ainda houve tempo para jantar e caminhar por Torla, antes de regressar ao hotel.
De sacos e mochilas prontos na carrinha, fomos rumo à última atividade da expedição – a via ferrata La Cresta de Sorrosal. Pairava um calor abrasador, as sombras eram inexistentes, e o sol queimava na pele. Resilientes como somos, não nos demos por vencidos. Passo a passo, fomos domando os quatro níveis de dificuldade (K1 a K4). Esta via ferrata tem a particularidade de não ser em “parede de montanha”, mas sim numa escarpa de “parede solta”, em que a progressão é praticamente toda executada em escalada. Sem dúvida que é um conceito diferente e novo, ainda assim encantou-me imenso.








Ao terminar a atividade, chegava aquela hora…. A hora do regresso a casa. Aquela hora que nos invade com um misto de emoções, onde a felicidade e a nostalgia, caminham lado a lado.
De regresso ao ponto de encontro inicial, despedimo-nos com a certeza de que esta expedição foi, sem dúvida, um sucesso. Demos as boas-vindas a dois colegas novos que embarcaram nesta aventura fabulosa connosco….
A todos os companheiros que integraram a expedição, aos companheiros de cordadas, aos nossos guias, o meu muito obrigada, por todos os momentos vividos nesta experiência magnifica, sem duvida que foi muito gratificante e claro com o grupo 100Trilhos!!
E a todos até breve!!
Se voltarei?! Quem sabe……






























