Crónicas de Montanha por Carla Albuquerque

Atrilheira Caminhante
Tinha de voltar a experienciar a liberdade e felicidade que outrora senti. Tinha de regressar com a energia renovada pela experiência vivida. Tinha de voltar a sentir o coração cheio
Capítulo 1
O Regresso ao Monte Perdido
Sempre disse que voltava e voltei.
Em junho de 2022, pisei pela primeira vez o Monte Perdido, naquela que foi também a minha estreia em expedições. Quatro anos depois, regressava ao mesmo lugar, movida pela vontade de reviver tudo aquilo que a montanha me tinha dado.
Havia uma necessidade difícil de explicar. Precisava de voltar a sentir a liberdade, o silêncio, o cheiro da floresta, a frescura do vento e aquela sensação única de plenitude que apenas a montanha consegue oferecer.
A longa viagem foi alimentando a ansiedade. Entre conversas, memórias e expectativas, o momento de voltar aos Pirenéus aproximava-se. Quando o Vale de Ordesa finalmente surgiu diante dos nossos olhos, percebemos que tudo estava prestes a recomeçar.
1º dia Só quem ama a montanha percebe o que nos motiva a sair da cama às 2h da manhã, às vezes sem ter conseguido dormir, e a viajar durante 6 horas até ao local onde inicia a aventura. Não há sono, mas antes uma energia boa que contagia o grupo.
Na chegada ao local de início da atividade, a Ferrata de Sabero O Valdetorno, ao longe, cada um de nós percebeu o porquê de o guia nos ter dito que era uma das mais longas e imponentes de Espanha.










Depois do almoço iniciámos a caminhada a partir do parque de estacionamento do Vale de Ordesa, rumo ao Refúgio de Góriz.
A floresta protegia-nos do calor intenso enquanto caminhávamos ao lado do rio e das cascatas que tornam este vale um dos lugares mais extraordinários dos Pirenéus.
Na Cola de Caballo fizemos a última grande paragem antes da subida mais exigente. A chuva apareceu inesperadamente e as passagens equipadas com clavijas obrigaram-nos a redobrar a concentração. Superado esse obstáculo, alcançámos finalmente Góriz, onde o descanso era fundamental para o grande objetivo do dia seguinte.
Ainda antes do nascer do sol já preparávamos mochilas e equipamento.
À medida que ganhávamos altitude, a montanha transformava-se. A vegetação desaparecia e dava lugar à neve que cobria lentamente toda a paisagem.
Na última paragem técnica colocámos crampons, ajustámos as cordas e preparámo-nos para enfrentar a Escupidera. O lema do grupo — “devagar e sempre” — fez novamente toda a diferença.
Pouco depois das onze da manhã chegávamos ao cume.
3355 metros.
O Monte Perdido recebia-nos novamente, desta vez completamente vestido de branco.
Foi impossível não pensar:
“Sempre disse que voltava e voltei.”





Capítulo 2
Até Breve, Monte Perdido
A felicidade e a nostalgia caminham lado a lado.
Depois do cume regressámos ao Refúgio de Góriz para recuperar energias antes de enfrentar uma nova etapa.
A descida pela Senda dos Caçadores revelou uma perspetiva completamente diferente sobre o Vale de Ordesa. A Faja de Pelay oferecia vistas intermináveis sobre falésias, cascatas e florestas.
O cansaço começava finalmente a fazer-se sentir. As botas rígidas, os quilómetros acumulados e o peso da mochila transformavam cada passo num pequeno desafio.
Mas bastava levantar os olhos para perceber que tudo continuava a valer a pena.








Depois de uma noite de verdadeiro descanso, chegou o momento de percorrer um dos trilhos mais famosos dos Pirenéus.
A Faja de las Flores voltou a surpreender-me.
Caminhar a cerca de dois mil metros de altitude, com o vale constantemente aos nossos pés, fazia-nos sentir dentro de um cenário cinematográfico.
Ao longo do percurso observámos aves de rapina, paredes verticais e uma paisagem que parecia não ter fim.
Ainda houve tempo para uma surpresa inesperada: um pequeno trilho extra e um rappel junto a uma cascata, que tornou este dia ainda mais memorável.



O último dia ficou reservado para a Via Ferrata La Cresta de Sorrosal.
O calor era intenso, mas a vontade de aproveitar cada minuto da expedição falava mais alto.
Entre secções K1 e K4 fomos ultrapassando sucessivamente cada obstáculo, descobrindo uma ferrata muito diferente das habituais, onde a progressão se faz quase sempre em verdadeira escalada.
Foi o encerramento perfeito para quatro dias intensos de montanha.
Como acontece em todas as expedições, chegou inevitavelmente a hora do regresso.
Despedimo-nos com a certeza de que tínhamos vivido mais uma aventura inesquecível.
A felicidade misturava-se com aquela nostalgia típica do último dia.
A todos os companheiros de caminhada, aos companheiros de cordada e aos guias, fica um enorme obrigado.
Porque mais do que alcançar um cume, aquilo que realmente levamos connosco são as pessoas, os momentos e as emoções que a montanha nos oferece.
E voltarei?
Quem sabe…




























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